Por João Carlos de Godoy Moreira
Engenheiro de Materiais | Diretor Técnico – Oeko Bioplásticos

A compostagem industrial consolidou-se como uma das principais estratégias de valorização da fração orgânica dos resíduos sólidos urbanos. Ao transformar restos de alimentos, resíduos verdes e lodos em fertilizantes orgânicos, a compostagem termofílica funciona como uma importante indústria de saneamento. Ao mesmo tempo, ela contribui diretamente para a redução de emissões de metano entre outros gases em aterros, e para o retorno do carbono ao solo — pilares fundamentais da economia circular.

No entanto, um desafio crescente ameaça a integridade desse ciclo biológico: a presença de microplásticos e PFAS nos resíduos orgânicos destinados à compostagem.

Conforme definido pela legislação brasileira (Resolução CONAMA 481/17 e IN MAPA 61/2020), a compostagem é um processo biológico controlado, aeróbio e termofílico, que transforma resíduos orgânicos em material estabilizado e seguro para o solo. Mas essa segurança depende da qualidade do insumo de entrada.

A literatura científica atual mostra que compostos orgânicos e biossólidos são uma via comprovada de introdução simultânea de microplásticos e PFAS no solo, e a compostagem convencional não elimina esses contaminantes — apenas os redistribui e, no caso dos plásticos, pode intensificar sua fragmentação.

Em 2025 tive a oportunidade de apresentar no 4º Bioplastics Brazil alguns dos principais estudos que demonstram que microplásticos e compostos per- e polifluoroalquil (PFAS) estão sendo detectados em fluxos orgânicos e em fertilizantes compostados. Isso significa que, mesmo quando o processo biológico é eficiente, contaminantes persistentes podem atravessar o sistema, chegar ao solo e afetar todos os sistemas vivos.

Muitos produtos de papel rotulados como “compostáveis” escondem uma realidade pouco discutida: para garantir resistência à água e à gordura, frequentemente recebem revestimentos com filmes plásticos ou PFAS.
Essas camadas criam uma barreira que impede a absorção de líquidos — e também impede a degradação adequada no processo de compostagem. Sem transparência na composição, esses materiais são descartados como orgânicos e acabam introduzindo contaminantes persistentes no composto final.

Microplásticos são partículas inferiores a 5 mm resultantes da fragmentação de plásticos convencionais ou da degradação incompleta de materiais rotulados como “biodegradáveis” em condições não ideais.

Pesquisas na Europa detectaram micro e mesoplásticos (1–8 mm) em compostos após seis semanas de compostagem industrial

Os riscos associados incluem:

  • Alteração da estrutura e agregação do solo
  • Interferência na retenção de água e porosidade
  • Impacto na microbiota do solo
  • Potencial adsorção de metais pesados e contaminantes orgânicos
  • Possível absorção por plantas e entrada na cadeia alimentar

Além disso, mesmo normas reconhecidas internacionalmente, como EN 13432, não estabelecem limites quantitativos claros para microplásticos residuais no composto final.

No Brasil, a regulamentação de fertilizantes orgânicos também não inclui critérios específicos para contaminantes plásticos, criando uma lacuna normativa relevante.

Outro ponto crítico envolve os PFAS — substâncias per- e polifluoroalquiladas — frequentemente utilizadas para conferir impermeabilidade a embalagens de papel e fibras vegetais.

O problema é que:

  • São altamente persistentes (“químicos eternos”)
  • Não se degradam no processo de compostagem
  • Podem migrar para o solo e ser absorvidos por plantas
  • Estão associados a riscos à saúde humana

Quando embalagens tratadas com PFAS entram no fluxo orgânico, o processo biológico não elimina essas substâncias. Elas permanecem no composto e retornam concentradas ao ambiente.

Grandes geradores — como hospitais, cozinhas industriais e indústrias alimentícias — exercem papel estratégico na qualidade da fração orgânica.

A adoção de sacos compostáveis certificados, compatíveis com normas como EN 13432, ASTM D6400 e ABNT NBR 15448, associada à correta segregação na fonte, reduz drasticamente a contaminação do orgânico e eleva a qualidade do composto final.

Dados comparativos indicam que o uso institucional de compostáveis pode reduzir a contaminação do orgânico de 35% para 2%, além de aumentar a eficiência do processo de compostagem.

Ou seja: o problema não é a compostagem.
O problema é o que permitimos entrar nela.

Defendemos uma mudança conceitual importante: sustentabilidade, por si só, não é suficiente quando o solo já está degradado.

É preciso regenerar. Regenerar significa:

  • Proteger o ciclo biológico da contaminação
  • Garantir que o composto devolvido ao solo esteja livre de microplásticos e substâncias persistentes
  • Integrar ciência, regulação e inovação tecnológica
  • Valorizar o resíduo orgânico como ativo estratégico da bioeconomia

A Política Nacional de Resíduos Sólidos estabelece como prioridade a não geração, redução, reutilização, reciclagem, tratamento e destinação final ambientalmente adequada. A compostagem qualificada é parte essencial dessa hierarquia — mas precisa ser protegida.

É necessário alertar que, se queremos que a compostagem cumpra seu papel climático e agronômico, precisamos:

  1. Elevar os critérios técnicos e regulatórios.
  2. Monitorar microplásticos e PFAS no composto final.
  3. Estimular materiais verdadeiramente compatíveis com o ciclo biológico.
  4. Valorizar o orgânico como insumo estratégico da transição ecológica.

Fontes científicas:

  • Oviedo-Vargas et al. (2025). Scientific Reports.
  • “Leaching of PFAS…” (2023). Journal of Environmental Management.
  • “Understanding dynamics of PFAS…” (2025). Journal of Water Process Engineering.
  • Radford et al. (2023). Frontiers in Soil Science.
  • “Accumulation of microplastics…” (2023). Science of the Total Environment.
  • Ruffell et al. (2024). MethodsX.
  • Siddiqui (2024). Integrated Environmental Assessment and Management (IEAM) – microplásticos e PFAS.
  • Moreira, J. C. G.; Matos, L. (2025). Impactos dos microplásticos e PFAS na compostagem e biodigestão de resíduos orgânicos. Bioplastics Brazil.

Acesso aos artigos científicos:

Artigos científicos:

Science of the Total Environment
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0048969724082627

Journal of Environmental Management
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0304389424036653

Springer
https://link.springer.com/article/10.1007/s10163-025-02359-5

MDPI Agronomy
https://www.mdpi.com/2073-4395/15/7/1736

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